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13 Lições que Aprendi com o Coronavírus em 2020

Por Henrique Katahira

O ano de que todos querem se esquecer chegou ao fim. Aproveitando esta época de retrospectivas e reflexões, compartilharei aqui alguns dos meus aprendizados em ordem cronológica.

1. Janeiro: Estamos chegando no limite do planeta

Os primeiros casos aparecem em Wuhan, na China, onde 27 dos 41 pacientes de Covid-19 contraíram a enfermidade no mercado úmido de Huanan (Fonte: Wikipedia). Sua origem, assim como a MERS, a SARS, a gripe suína e a gripe aviária evidencia que a redução dos habitats naturais e o consumo de carne favorecem o transbordamento novas patologias para seres humanos. Estamos definitivamente ultrapassando um limite perigoso.

2. Fevereiro: Globalização, interdependência e desigualdade social

Em fevereiro de 2020, a pandemia saiu do país de origem e chegou em 28 países, devido à sua alta taxa de transmissão e pelo fato do mundo estar altamente globalizado, conectado e interdependente. O primeiro caso confirmado no Brasil foi de um homem de 61 anos que havia feito uma viagem na Itália.

Tragicamente, a primeira vítima no Brasil foi uma mulher de 63 anos, empregada doméstica que havia contraído a doença da patroa no Leblon, ressaltando a questão da desigualdade social.

3. Março: A regeneração é muito mais rápida do que se imaginava

A quarentena e o lockdown mostraram que, freando a atividade humana, a natureza se regenera muito rapidamente. Com a diminuição da atividade humana é possível ouvir o canto dos pássaros nas cidades e animais selvagens ocupam as ruas. Até os canais de Veneza ficaram cristalinos com a ausência de turistas.

4. Abril: Lideranças empáticas, que sabem ouvir e se comunicar bem, lidam melhor com a crise

Jacinda Ardern, Primeira Ministra da Nova Zelândia, deu uma aula de gestão de crise e liderança utilizando uma abordagem focada em três pilares: direcionamento, senso de significado e empatia, através de lives quase diárias no seu perfil do Facebook. O resultado foi surpreendente: a Nova Zelândia terminou o ano de 2020 com 1806 casos confirmados e 25 óbitos.
 

Leia mais em “Three reasons why Jacinda Ardern’s coronavirus response has been a masterclass in crisis leadership”

5. Maio: Transformação digital tem a ver com cultura e não com tecnologia

Se a tecnologia que possibilita o trabalho remoto já existia desde antes da pandemia, por que a maioria das empresas (ou dos chefes) era contra? Simplesmente porque havia uma cultura da desconfiança, uma crença de que se não houver alguém controlando, o funcionário não irá fazer seu trabalho.

Com o home office forçado, o paradigma da desconfiança foi atualizado para o paradigma da confiança e uma nova cultura baseada na autonomia, responsabilidade e colaboração começa a emergir.

6. Junho: Mudança de valores e êxodo urbano. O que é realmente essencial? Como ter um modo de vida mais saudável e sustentável?

Depois de alguns meses de isolamento social e home office comecei refletir sobre o que é realmente essencial para mim e para a sociedade. Passei a valorizar o acesso à comida saudável, alimentação orgânica, acesso gratuito à saúde, espaços de autocuidado, atividade física, banhos de sol, contato com a natureza e o contato com pessoas queridas mesmo que no virtual.

Passei também a valorizar as profissões que estão se arriscando na linha de frente como os profissionais de saúde, caixas de supermercado, entregadores, frentistas, além dos profissionais da arte e cultura (afinal o que seria de nós sem arte e cultura na quarentena?). Percebi também que a economia simplesmente para quando deixamos de consumir aquilo que não é essencial.

Êxodo Urbano e vida mais saudável e sustentável​

Em poucos meses, a pandemia também acelerou outro fenômeno emergente que precisava de um empurrão para deslanchar: o êxodo urbano. Motivadas pela mudança de valores, possibilidade de trabalhar de qualquer lugar ou vontade de empreender, milhares de famílias começaram a sair das capitais realizar o sonho de viver no campo ou na praia. Eu mesmo comecei a flertar com esse movimento com a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar para poder viver de forma mais simples, saudável e sustentável, plantando e preparando meu próprio alimento.

7. Julho: O mês mais fatal da pandemia de Covid-19 no Brasil até então e a importância do autocuidado

Enquanto o Brasil registrava 33 mil vítimas, eu continuava de quarentena saindo de casa uma ou duas vezes por semana para fazer compras de itens essenciais. Neste período, percebi a importância de ter uma rotina diária e semanal de autocuidado para não enlouquecer. Criei o hábito de travar duas horas por semana da minha agenda para fazer atividades físicas. A quadra do condomínio do prédio onde morava estava liberada para uso dos moradores e eu costumava fazer um treino de Muay Thai sozinho ou jogar vôlei com minha companheira. Este hábito me ajudou a manter minha saúde física.

Para não exceder o tempo de tela, criei uma regra interna de evitar reuniões na parte da manhã e começar a trabalhar às 10h, após tomar um café-da-manhã e meditar. Outro costume que tenho é de reservar 2 horas no horário de almoço para preparar o alimento e ter um tempo de qualidade na refeição.

8. Agosto: A importância de ouvir as necessidades por trás das angústias

Depois de 6 meses de disciplina e austeridade, minha companheira e eu começamos a nos sentir angustiados até descobrirmos que algumas necessidades estavam sendo negligenciadas. Eu sempre tive uma tendência a autopreservação e minhas necessidades estavam mais ligadas à segurança. Minha companheira, por outro lado, tinha uma necessidade de liberdade e decidimos então fazer uma viagem para o litoral de Santa Catarina para trabalhar e descansar. Para atender a minha necessidade de segurança, levamos o máximo de comida possível, ficamos numa casa afastada numa vizinhança com cara de zona rural, isolados das pessoas mas com muita natureza em volta. Assim, conseguimos conciliar nossas necessidades de segurança e liberdade para recarregar as baterias e voltar para São Paulo.

9. Setembro: Perceber e responder para entrar no fluxo da vida

Depois da experiência de descansar e trabalhar na casinha no litoral de Santa Catarina, decidimos buscar um lugar para chamar de nosso para morar. Em menos de 48h conseguimos o contato de uma pessoa que estava terminando de construir uma casa para alugar no lado da casinha onde ficamos e, da assinatura do contrato, até a mudança em si, o universo conspirou a favor numa sequência de acontecimentos surpreendentemente fluidos. O processo todo durou apenas três semanas. Lembrei-me de uma frase Caio Fernando de Abreu: “O que tem que ser tem muita força”. Meu maior aprendizado foi abrir mão do controle e confiar no fluxo.

 

10. Outubro: Viver em comunidade é poder contar com o apoio dos amigos

A mudança para uma nova cidade poderia ter sido uma experiência traumática e solitária se não fosse o espírito de comunidade dos nossos vizinhos. Logo no começo de outubro, numa semana de muita chuva e vento, acontece aquilo que mais temia: ficar sem internet no dia de um evento importante.

O provedor de internet da casa que alugamos é via rádio e o vento deixou parte da rede sem serviço justo no dia que iríamos facilitar um treinamento para líderes internacionais. Pedimos ajuda e em poucos minutos minha vizinha se prontificou e colocou uma mesa e uma cadeira na sua varanda, puxou uma extensão, anotou a senha do wifi num papelzinho e pude facilitar o treinamento como se nada tivesse acontecido. Nada como pedir ajuda e poder contar com o apoio da comunidade.

11. Novembro: A pandemia é na verdade uma sindemia

Segundo pesquisa publicada na revista científica The Lancet, o Covid-19 não é uma pandemia e sim uma sindemia. O termo sindemia (um neologismo que combina sinergia e pandemia) ocorre quando “duas ou mais doenças interagem de tal forma que causam danos maiores do que a mera soma dessas duas doenças. O impacto dessa interação também é facilitado pelas condições sociais e ambientais que, de alguma forma, aproximam essas duas doenças ou tornam a população mais vulnerável ao seu impacto”. Para controlar a sindemia temos que cuidar não somente da parte sanitária mas de fatores como diminuição da desigualdade social, acesso à alimentação saudável, saneamento básico e proteção de ecossistemas.

12. Dezembro: Um olhar mais amplo para a hipótese de Gaia

No mês em que as vacinas começaram a ser distribuídas um artigo da UFRJ chamado “O novo coronavírus e hipótese de Gaia” aparece na minha timeline e chama a minha atenção. O coronavírus é parte do sistema vivo de Gaia e, como tudo na natureza, ele tem uma função: frear a atividade humana. Ou aprendemos a viver dentro do limite do planeta ou o sistema dará um jeito de se autorregular. Vacinas são medidas paliativas que poderão ajudar a humanidade a sair da crise e fazer o que deve ser feito: criar um novo sistema econômico distributivo, compassivo e regenerativo por concepção. Até lá, dada a natureza mutante do vírus, ficaremos no ciclo infinito de vacinas, mutações e atualizações.
 

13. Bônus: Qual a função da humanidade no sistema de Gaia?

O líder espiritual indiano Sadhguru disse uma vez que, segundo estudos científicos, se os insetos desaparecessem amanhã a vida na Terra desapareceria em 25 anos. Por outro lado, se os humanos desaparecessem amanhã, em 25 anos o planeta voltaria a florescer de forma deslumbrante.

Não sei se Sadhguru está certo quanto aos insetos, mas tenho certeza de que se a humanidade desaparecer amanhã, o centro São Paulo voltará a ser uma floresta exuberante em algumas dezenas ou centenas de anos.

Voltando ao raciocínio, termino este artigo com algumas perguntas sobre as quais devemos refletir no próximos anos. Se tudo na natureza tem uma função, qual será a função da humanidade? Por que a humanidade deve seguir existindo no planeta Terra? O que a humanidade tem a contribuir para que Gaia prospere e evolua como sistema vivo?

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