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A evolucionária fábrica de portas

Por Patrizia Bittencourt

· Reinventando Org
Imagine uma empresa na qual todo mundo se sente dono, de verdade.

 

“Uma vez um cliente ligou muito bravo explicando o problema que estava tendo: ´Quero falar com o dono!´. E a nossa telefonista sentiu que poderia atendê-lo e disse: ´O senhor está falando com uma acionista da Pormade, o senhor pode falar comigo´, e resolveu o problema dele.”

 

Imagine uma empresa na qual todo mundo se sente dono, de verdade. Esta história foi contada por Claudio Zini, Diretor Presidente da Pormade. Não é o batido “vestir a camisa”, mas de fato uma postura cultural que transformou toda a organização. “Todo mundo tem o direito de assumir o papel de dono. Se estamos aqui em 600 colaboradores, somos 600 donos, as decisões partem do chão de fábrica, de baixo para cima, onde o poder está nas pessoas que realmente fazem o trabalho”: é assim que responde Claudio Zini sobre como se manifesta a cultura da empresa.

 

Em março deste ano visitei a Pormade, indústria de portas de União da Vitória, no interior do Paraná, maior fabricante de portas prontas do Brasil, com 600 colaboradores. E esta experiência só veio reforçar o que tenho aprendido e difundido sobre formas de transformação e evolução organizacional na nova economia.

 

Li o livro “Reinventing the Organizations” de pesquisador belga Frederic Laloux, lançado em 2014, e a partir daí comecei a acompanhar o processo de tradução colaborativa do livro empreendido pela cuidadoria e parceiros. O lançamento da versão brasileira do livro “Reinventando as Organizações — Um guia para criar organizações inspiradas no próximo estágio da consciência humana”, tem se espalhado pelo Brasil. Fiquei muito impactada com a investigação a fundo realizada por Frederic Laloux em organizações como a holandesa Buurtzorg, a francesa Favi, a americana Morning Star, dentre outras.

 

Partindo de relevantes pesquisas anteriores a propósito da evolução da consciência humana, como a Teoria Integral de Ken Wilber e o trabalho de Jenny Wade, e de outros autores pioneiros, sobre como a transição para um novo estágio de consciência conduziu a uma nova era da história humana, Frederic Laloux relaciona as etapas de desenvolvimento humano a diferentes padrões de desenvolvimento organizacional. A atenção de Laloux, de maneira geral, está em investigar como a estrutura, as práticas e a cultura que as organizações colocam em funcionamento demonstram padrões de comportamento de colaboradores e líderes. Através de uma pesquisa rigorosa e profunda, ele reúne e delineia práticas e cultura que ilustram 3 grandes pilares: o “propósito evolutivo”, não como um conjunto vago de missão-visão, mas um objetivo fundador que transmita o que realmente importa para as pessoas na organização; a “autogestão”, ou como o poder é distribuído pelas pessoas dentro da organização e a “integralidade”, ou “o que nos faz deixar um tanto de nossa individualidade para trás quando vamos ao trabalho.”

 

Com quem converso, estes ensinamentos estão fazendo cada vez mais sentido. E aí resolvi visitar a Pormade, onde assim como em outras empresas no Brasil é possível ver de perto os princípios do livro se manifestando concretamente: “propósito evolutivo”, “integralidade”, “autogestão”.

 

Relaciono aqui, de forma livre e despretensiosa, os três grandes pilares da pesquisa de Laloux a algumas das práticas que pude observar na Pormade Portas.

 

Autogestão:

 

Equipes semi autônomas: na Pormade as equipes de trabalho por setor de especialidade são chamadas de “grupos de melhoria”. Os colaboradores se organizam entre eles e estão continuamente trabalhando e observando onde podem melhorar algum processo ou produto, este é uma forte característica do “espírito” dessa organização que há mais 20 anos experimenta uma forte mudança de cultura e práticas de desenvolvimento organizacional.

 

A organização diminuiu os níveis hierárquicos da organização. Todos são considerados donos: a confiança é considerada o maior ativo da empresa, elimina burocracia, dá mais agilidade; “quem mais conhece o trabalho é quem está próximo dele.”

Novas métricas e incentivo à inovação: a organização está implantando métricas para remuneração por célula (equipe de 5 a 8 pessoas) de trabalho.

Comunicação mais horizontal: com caixas de som instaladas em diversos pontos da fábrica permitem que todos os colaboradores acompanhem a transmissão das reuniões nos cafés semanais.

Mais liderança, menos gestão: na Pormade “a gente gerencia muito pouco e lideramos bastante.”

 

Integralidade:

 

A criação do CEDEP (Centro de Desenvolvimento Humano Pormade): desenvolvimento humano é um dos pilares no qual a organização investe continuamente. O CEDEP é o centro criado dentro da fábrica de apoio aos colaboradores e familiares a aprender, se desenvolver, cuidar da saúde e praticar o voluntariado e a solidariedade.

Alguns programas mantidos pela organização, por meio do CEDEP:

 

“Ganhe dinheiro aprendendo”: programa que incentiva com pequenas quantias em dinheiro para leitura de livros e compartilhamento de ideias e erros.

“Programa Saber Fazer”: oficinas diversas de artesanato com sobras e resíduos do processo produtivo, uns ensinam os outros no CEDEP.

“Programa Saber Empreender”: programa que estimula colaboradores a aprender estratégia de vendas e precificação de produtos para a venda em feiras.

“Programa Aprender Comer bem”: programa do CEDEP que estimula o aproveitamento integral dos alimentos e a cuidado com a saúde.

“Juntos Somos Mais Fortes”: ação de voluntariado da Pormade que envolve a todos os colaboradores, atende a diferentes projetos de apoio à comunidade, multirões, feiras, coleta e doação de alimentos, dentre outros.

 

Propósito evolutivo:

 

Fortalecimento da cultura da empresa: cafés semanais com equipes de colaboradores acontecem por rodízio. Um pequeno grupo é chamado semanalmente para um café com o Presidente da empresa. Nestes cafés uma conversa informal é iniciada normalmente em torno da frase: “O que hoje é impossível, mas que se fosse possível mudaria drasticamente para melhor a nossa forma de trabalhar e de viver.” (Joel Barker) ou algum colaborador se voluntaria a contar o que entende de algum dos 10 valores da organização (detalhados mais adiante).

 

Algumas frases que estão espalhadas pela fábrica, tanto nos escritórios (abertos e sem divisórias entre os departamentos), quanto no chão de fábrica, mostram como é possível, de forma simples, criar uma cultura positiva que possa se espalhar, alinhando expectativas das pessoas de forma orgânica e natural:

- “Tenho sempre a intenção de ser JUSTO ao invés de ser BONZINHO?”

- “Declarar um problema é uma alegria.” (Vicente Falconi)

- “Brinque com esta frase todos os dias. O que hoje é impossível, mas que se fosse possível mudaria drasticamente para melhor a nossa forma de trabalhar e de viver.” (Joel Barker)

- “Abaixo o medo de participar! Risco e comprometimento: os segredos do sucesso.”

- “Faça mal feito o que precisa ser feito, e não faça bem feito o que não precisa ser feito.

- Inicie mesmo sem saber, logo virá alguém para colocar os bois na frente, puxando a carroça. Siga as tendências de mercado. Inove seus produtos e serviços. O impossível é aquilo que ninguém fez até que alguém o faça. Comece, mesmo que esteja errado, depois vem alguém que vai melhorar a sua ideia. Thomas Edson, inventor da lâmpada, disse: Eu não fracassei 10 mil vezes. Eu eliminei 10 mil vezes, sem sucesso, materiais e combinações que não funcionaram.”

- “As oportunidades estão sempre no lugar onde as pessoas reclamam.” (Jack Ma, fundador do Alibaba)

- “FALHE RAPIDAMENTE, APRENDA E SIGA EM FRENTE. O erro se torna mais barato quando se erra rápido, e se torna muito caro quando se fica tentando evitá-lo.”

- “Liberdade com responsabilidade, comunidade com competição, missão social com bons lucros.” (Gary Hamel)

 

Algumas frases de Claudio Zini:

- “Sem pressão por resultados: maior autonomia dos colaboradores gera naturalmente mais qualidade e mais inovação, e a inovação vem de todos os níveis da organização, é celebrada e incentivada, inclusive financeiramente às equipes que a desenvolvem.”

- “Pessoas não são custos, pessoas são pessoas.”

- “Nos próximos 5 ou 10 anos será uma revolução tecnológica tremenda. O emprego como conhecemos irá se transformar radicalmente. A tecnologia irá transformar tudo o que conhecemos. Para quem se apaixonar por problema, para quem gosta de problema não vai faltar trabalho.”

- “A tendência está no digital. Quem faz consegue se diferenciar. Mas não há uma visão comum e logo será uma obrigação.”

- “O maior desperdício das organizações é o desperdício de cérebros.”

 

Claudio Zini diz que não é fácil e leva tempo mudar uma cultura. E sabe que isso passa pela educação e o desenvolvimento das pessoas. É por isso que outro valor que transforma na Pormade é a formação contínua. A educação é um pilar de valor da organização, uma causa, um valor compartilhado por todos. A formação contínua é quase uma obsessão imbuída pelo desejo de desenvolvimento humano das pessoas.

 

A evolução do nível de escolaridade dos colaboradores é realmente surpreendente. Ainda que bem desatualizado, é possível ter uma ideia do que estamos falando. Conforme mostra o quadro abaixo, em 10 anos com o apoio da empresa aos colaboradores, eles mudaram radicalmente os números de grau de escolaridade da organização.

Há dezenas de iniciativas educacionais para o colaborador e sua família. Iniciativas simples e criativas para motivar e celebrar a educação como um valor interno transformador. Há relatos de como essas iniciativas transformam o cotidiano da vida dos colaboradores e influencia positivamente a vida em família, como um colaborador que levou um livro para casa e comentou com a mulher que se lesse o livro poderia receber uma pequena quantia em dinheiro. Ela se divertiu com a ideia e incentivou o marido a ler o livro. Daí para frente a própria mulher se engajou em ações sociais da empresa e aproveita os cursos de empreendedorismo que a organização oferece no Centro de Desenvolvimento Humano da Pormade, dentre muitos outros relatos.

 

Por toda a fábrica há um banner incentivando os colaboradores a aprender:

 

“Ganhe dinheiro aprendendo:

R$ 5,00 — Interpretação do livro do Prof. Marins

R$ 15,00 — Redação de DVD´s

R$ 4,00 — Compartilhar uma coisa boa

R$ 5,00 — Compartilhar erros”

Ainda dentro do propósito evolutivo, de tudo o que mais me tocou foram os 10 valores da Pormade.

 

Os 10 valores da Pormade foram criados durante sessões de uma consultoria que Claudio Zini contratou de volta a uma viagem exploratória sobre Administração 

Participativa ao Japão em 1988. Claudio explicou que esta viagem o marcou muito assim como as suas leituras como “Paixão por Vencer” de Jack Welch ou “O Futuro da Administração” de Gary Hamel e muitos outros, obras cujos ensinamentos foram testados na prática por ele por longos anos para mudar a cultura da organização.

 

OS 10 VALORES DA PORMADE PORTAS

 

“1. Encantar o cliente, pois é ele que nos garante o emprego.

2. Ser entusiasmado também em épocas difíceis.

3. Desobedecer para fazer o melhor.

4. Inovar é errar, sem perder as esperanças.

5. Erros são tesouros, quando bem evidenciados, mostrados e discutidos.

6. Pequenos detalhes no piso de fábrica é o que dão grandes resultados no todo da empresa.

7. Amar as mudanças como as odiávamos no passado.

8. As realizações de sua equipe são ferramentas de sucesso.

9. Qualidade não se controla, se produz.

10. Os colaboradores da Pormade tem poder de agir.”

 

Estes valores são muito especiais! Vale a pena serem comentados mais profundamente em uma próxima ocasião em um próximo texto, assim como acontece a inovação na Pormade. Mas um deles me chama muito a atenção, é o que eu gosto mais: “Amar as mudanças como as odiávamos no passado.” É difícil mudar, como resistimos à mudança! Mas a transformação é necessária para evoluir.

 

E a Pormade certamente evolui a cada dia. Não é a toa que desde 2003 a empresa ganha todos os prêmios de melhor empresa para se trabalhar; de qualidade de vida e felicidade no trabalho.

Hoje como facilitadora e professora de nova economia, depois de um percurso de 20 anos no setor industrial (10 anos em multinacionais francesas da indústria automobilística e mais 10 na institucionalidade do setor), uma alegria inunda meu coração ao compartilhar esta história com vocês aqui no Medium.

 

Saí dos portões da fábrica profundamente tocada, derramando uma lágrima grossa de felicidade.

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